Passado mais de um mês da posse, Prefeitura de Santa Luzia tenta pôr ordem na casa

A demanda da UPA do Bairro São Benedito, em Santa Luzia, aumentou três vezes depois que os postos de saúde dos bairros vizinhos foram fechados Prefeitos que tomaram posse no início do ano ainda convivem com escassez de verbas e de médicos e não conseguem manter os serviços essenciais. Até agora, só sobram dívidas
De: Estado de Minas Cidades

O cenário caótico em que várias cidades mineiras iniciaram o ano está longe de ser resolvido. Passado um mês da posse dos novos prefeitos, dívidas pendentes das administrações passadas, salários atrasados de funcionários e falta de dinheiro até mesmo para serviços básicos como coleta de lixo e atendimento nos postos de saúde ainda geram dor de cabeça à população. Isso sem contar o cancelamento do carnaval. Em algumas cidades, a folia foi barrada na última hora por escassez de verba e de estrutura. Como se não bastasse a ausência de recursos para normalizar rapidamente as demandas dos moradores, os prefeitos herdaram de seus antecessores outro problema causado pelas dívidas municipais: a proibição de firmar novos convênios com os governos federal e estadual.

De todos os transtornos constatados nesta semana pela equipe de reportagem do Estado de Minas nas cidades visitadas, a área de saúde é a que continua mais distante da normalidade. Em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, somente seis dos 30 postos de saúde voltaram a funcionar até ontem. Na maioria das unidades, foram colocadas placas informando que os prédios passam por reformas e que haverá novos médicos contratados para atender a população, porém não há previsão de reabertura.

As portas fechadas da Unidade Básica de Saúde (UBS) Tia Lita, no Bairro Palmital, fizeram com que a diarista Edinalva Felismino de Jesus, de 54 anos, adiasse mais uma vez sua consulta na manhã de ontem. “Vim hoje para medir minha pressão e procurar alguma ajuda, porque já tem tempo que não me sinto bem. Desde que o posto foi fechado, ficamos sem opção e ninguém sabe informar quando é que ele vai ser reaberto”, reclamou. Como a segunda unidade mais próxima da casa dela, a UBS Cristina, também está fechada para reformas, Edinalva teve que procurar atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro São Benedito, onde foi registrada uma procura três vezes maior por usuários desde o fechamento dos postos de saúde dos bairros vizinhos.

Segundo o prefeito Carlos Calixto (PSB), uma das dificuldades encontradas é achar clínicos gerais para ocupar as vagas em aberto. Ele ressalta que ao assumir a prefeitura, em janeiro, os postos de saúde funcionavam sem médicos ou estrutura física para receber pacientes, e garante que até o final do mês todos estarão com as equipes médicas recompostas. “Conseguimos reforçar o atendimento nas unidades emergenciais e já aumentamos de R$ 9 mil para R$ 15 mil o salário dos médicos. Nas unidades básicas tivemos atrasos, já que é preciso contratar um médico de perfil específico e que tenha disponibilidade para atender das 8h às 17h. Já colocamos anúncios nos sindicatos e nas rádios”, pontuou Calixto.

Sucateamento No primeiro mês da administração de Joel Martins (PTB) em Nova Serrana, no Centro-Oeste de Minas, a constatação é de que será preciso mais 60 dias para que os serviços públicos voltem ao normal. Há duas semanas, ele decretou estado de emergência administrativa e financeira, pedindo um prazo de 90 dias para contratar funcionários para limpeza urbana e comprar equipamentos básicos sem necessidade de licitações. A principal dificuldade é conseguir terminar os reparos urgentes em prédios públicos, especialmente nos postos de saúde, escolas e no centro administrativo, além da renovação da frota de veículos, que estaria sucateada.

Atualmente, o Hospital São José está fechado e, para conseguir atendimento, a população conta com 17 postos de saúde da família e uma unidade de pronto atendimento (UPA). “A UPA tem funcionado como hospital e isso tem nos preocupado. É uma área preocupante. Estamos nos reunindo com o Ministério Público para conseguir sanar esses problemas o quanto antes. Acredito que até abril todos os setores da prefeitura estejam em ordem”, estima.

Nas ruas, a população parece concordar: a saúde precisa de atenção reforçada nestes primeiros meses do ano. A esposa do gerente de produção, Ademiro José Vasconcelos, de 40 anos, teve uma complicação aos oito meses de gravidez. Sem ter um hospital em funcionamento, ele teve que levar a mulher a Divinópolis. “O bebê nasceu e deu tudo certo. Mas tem muita gente que acaba tendo mais complicações por causa desse caos da saúde. Não sei se o primeiro mês desse novo prefeito foi bom ou não. Mas a saúde continua terrível. Melhor não ficar doente por aqui”, avisa.

Três cargos em um Já em Sabará, na RMBH, normalizar o atendimento de saúde vai demorar pelo menos um semestre. Isso porque o concurso lançado em setembro do ano passado, que prevê a contratação de 21 médicos e 11 enfermeiros, passou por atrasos e a prova está marcada para o fim do mês. Em uma das unidades do Bairro General Carneiro, as funções de recepcionista, enfermeira e distribuição de remédios na farmácia no posto são acumuladas por uma pessoa. Segundo a funcionária, que não quis se identificar, a situação se tornou inviável desde o fim do ano passado, quando colegas foram demitidos e os salários deixaram de ser pagos.

“Por aqui tem faltado tudo. O material de limpeza praticamente acabou e até gaze para feridas menores nós estamos ficando sem. Há uma semana, o porteiro que trabalhava aqui parou de vir e estamos com medo por causa da insegurança”, contou ela. Havia falta de médicos em outros dois postos ontem. Segundo o secretário municipal de saúde, Rodrigo Leite, os trabalhos para restabelecer os serviços essenciais estão em andamento e até o fim do mês as equipes estarão completas, com nomeações emergenciais. “Pedimos paciência à população, porque encontramos a área da saúde em situação complicadíssima. Conseguimos impedir interrupções no atendimento. Já aumentamos em mais da metade a cobertura”, garantiu.
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