Peças sacras de Santa Luzia sofrem com o tempo


Peças sacras centenárias são corroídas pelo tempo e atacadas por insetos em Minas. Especialista sugere medidas seguras para proteção de acervo corroído pelo tempo.

De: Estado de Minas CIDADE

O que os olhos não veem, o patrimônio de Minas sente. E se degrada, perde as cores originais, ganha colônias de cupins e se torna alvo fácil do tempo. Guardadas – ou esquecidas – durante anos em sacristias, igrejas e até prédios desativados, muitas imagens, pinturas e outras peças sacras esperam que alguém as resgate do abandono, providencie o restauro e lhes dê um lugar de destaque nos templos barrocos. Em Paracatu, no Noroeste de Minas, obra na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída em meados do século 18 e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), faz uma surpresa. Dois querubins de madeira, apreendidos em São Paulo há exatos 10 anos pela Polícia Federal, foram encontrados na casa paroquial, sem que despertassem maior atenção nesse período. Agora, os objetos de madeira servirão de modelo para mais dois anjos e todos estarão no altar. Há 20 anos, foram roubados quatro querubins, mas só dois recuperados.

“Felizmente, as peças estão bem conservadas, sem problemas”, conta o historiador, professor e pesquisador da história de Paracatu Lavoisier Albernaz destacando que o altar estava em péssimas condições e não valia à pena que as esculturas retornassem. Com o início do atual projeto de reforma, Lavoisier se lembrou dos anjos guardados num armário da casa paroquial e informou imediatamente ao restaurador responsável pelo serviço, Adriano Ramos, da empresa Oficina de Restauro, de Belo Horizonte. “Só o antigo bispo e eu sabíamos disso, mas ele foi para outra cidade e os anjos acabaram esquecidos. Mas guardei fotos e tenho muitas informações sobre os objetos. Estamos satisfeitos, pois há muitas descobertas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, datada de 1744. Se Deus quiser, os quatro anjos vão voltar”, afirma o historiador.

Mais satisfeitos com o achado estão o pároco, monsenhor João César, e o integrante do conselho administrativo João Benedito. É que, para fazer as réplicas dos dois querubins, a igreja ganhou a madeira suficiente (cedro). “Foi uma descoberta muito importante”, afirma o monsenhor. Atuando também na restauração dos elementos artísticos da Matriz de Santo Antônio, Adriano Ramos chama a atenção para os cuidados na hora de guardar os bens: “Muitas vezes, obras frágeis são colocadas em lugares impróprios, com excessivo grau de umidade e suportes infestados de cupins”.

SANTA LUZIA
 
Em Santa Luzia, na Grande BH, outra história vem à tona, desta vez sem a mesma sorte na conservação. No consistório (sala de reuniões), no segundo andar do Santuário de Santa Luzia, no Centro Histórico, está um quadro de Nosso Senhor dos Passos, do século 19 e dono de uma trajetória peculiar. O marceneiro-restaurador José Antônio Torres, conhecido como Mosquito, conta que, durante a grande obra de restauro da igreja, em 1987, o painel medindo 2,30 metros por 1,30 metro e de autoria desconhecida foi encontrado atrás do altar de Nosso Senhor dos Passos. “Era impossível saber da sua existência, talvez tenha ficado ali por um século. Quando olhávamos por detrás, víamos apenas a madeira nua sem a policromia”, explica. Ainda naquele ano, os restauradores identificaram, na base do altar, uma carretilha, que permitia que o quadro "corresse" por ali e fechasse, como se fosse uma porta, o retábulo durante as cerimônias da semana santa.

Desde aqueles tempos, o quadro do Senhor dos Passos continua longe dos olhos dos fiéis e visitantes e sofreu com a degradação. “Trata-se de um quadro muito bonito, de qualidade. O artista pintou o resplendor em alto-relevo, dando um tom mais claro em volta da cabeça de Cristo”, mostra José Antônio. Ele aponta ainda marcas de pregos, perda de policromia e outros fatores de alto risco. “Mesmo que a peça não esteja no altar, é importante verificar sempre o seu estado. Na época da obra na igreja, a peça seria restaurada, mas faltaram recursos.”

Ao lado, o padre Danil Marcelo dos Santos, seis anos à frente da paróquia, adianta que busca patrocínio para restaurar o painel de Nosso Senhor dos Passos. “Já conseguimos recuperar todas as imagens da igreja, com dinheiro do dízimo e de barraquinhas. Se conseguirmos restaurar o quadro e houver autorização do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG), responsável pelo tombamento da matriz, poderemos emoldurá-lo ou então colocá-lo, nas procissões da semana santa, em uma das capelinhas que representam os Passos da Paixão de Cristo”, diz padre Danil.


Relíquias trancadas

Dois exemplos recentes, ocorridos em Minas, mostram que peças costumam ficar guardadas ou esquecidas durante décadas, com resultados bem diferentes. O primeiro caso, documentado pelo Estado de Minas em 10 de julho, ocorreu em Berilo, no Vale do Jequitinhonha. Mais de 30 peças sacras foram encontradas num cofre localizado num antigo e desativado posto de saúde no Centro da cidade.

A população comemorou a descoberta do patrimônio, que inclui imagens, castiçais, lampadário, resplendores, coroas, objetos usados em festas do congado, um ex-voto e outros objetos de prata e madeira. O armário ficou fechado durante 30 anos e o titular da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, padre Charleston Pereira Lima, comemorou a abertura do móvel, atitude cobrada havia muito tempo pelos moradores

Segundo o vigário, as peças foram transportadas para um local fora da cidade a fim de garantir a segurança do acervo: “Muitas delas, principalmente as de madeira, estão bem deterioradas, necessitando de restauração. Estamos providenciando uma forma de recuperá-las”. A abertura do armário-cofre foi possível graças a uma solicitação do ex-promotor da comarca de Minas Novas Wagner Aparecido Rodrigues Dionísio e posterior condução do procedimento pelo atual promotor Erick Anderson Caldeira Costa. A historiadora Paula Novais, da Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC), esteve no local e elaborou um laudo sobre todo o material encontrado.

Em 31 de julho, outra surpresa, desta vez no Santuário Estadual de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, na Grande BH. Uma escultura de bronze do mineiro Alfredo Ceschiatti (1918-1989), guardada durante 30 anos, foi instalada no meio de uma rotatória recém-construída, perto do restaurante e do acesso à ermida do século 18. A imagem de 1,70 m de altura mostra Nossa Senhora com o Cristo morto nos braços.

O arcebispo metropolitano dom Walmor Oliveira de Azevedo explicou que a escultura foi feita em 1983 a pedido de frei Rosário Jofylly (1913-2000), frade dominicano que ficou 51 anos à frente do santuário. Por ser moderna demais para a época, a peça ficou uns tempos na Igreja Nova das Romarias e depois foi guardada. Os visitantes gostam do que veem, tanto que a Pietá de Ceschiatti está sempre cercada e, claro, todos documentam nos celulares e câmeras digitais.
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