Recuperação de imagem da padroeira de Santa Luzia é acompanhada por devotos


Moradores e visitantes fazem questão de ver de perto o trabalho minucioso de restauração da peça em estilo rococó, feito por uma especialista no santuário de Santa Luzia

De: Estado de Minas Cidades

É proibido tocar, mas pode olhar à vontade, acompanhar os movimentos suaves dos pincéis e presenciar as etapas do processo de restauração da peça sacra. O consistório, ou sala de reuniões, do Santuário de Santa Luzia, em Santa Luzia, na Grande BH, se transformou em um ateliê aberto ao público para receber a imagem da padroeira esculpida no início do século 19, em estilo rococó, e necessitada de reparos na policromia e douramentos folheados a ouro, entre outros serviços.

À frente do trabalho está a especialista Carla Castro Silva, que promete concluir o restauro até 13 de dezembro, data consagrada à protetora da visão e dia de festa na cidade, com procissão, peregrinação de milhares de devotos e barraquinhas no Centro Histórico. “Pode ficar faltando um detalhe ou outro, mas a imagem estará pronta para participar das celebrações religiosas”, garante a restauradora. Os recursos são da própria paróquia.

As etapas do restauro são acompanhadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), responsável pelo tombamento, tanto da igreja como do Centro Histórico de Santa Luzia. Segundo Carla, o restauro no consistório evita que a escultura de grande porte seja retirada da igreja e transportada para Belo Horizonte e permite que as pessoas possam visitá-la, desde que com agendamento.

“Esta é a primeira vez que uma área do santuário, tombado pelo município, abriga o restauro de uma peça. Situação semelhante ocorreu no município em 2011, no Mosteiro de Macaúbas, para recuperar a escultura de Nossa Senhora de Lourdes. Como o convento funciona em clausura, apenas as freiras puderam acompanhar a intervenção”, explica o diretor do Museu Aurélio Dolabella, o historiador Marco Aurélio Fonseca. Os Interessados em ver o restauro devem ligar para (31) 3641-5204.

O caminho até o consistório, no segundo andar da igreja, do século 18 – uma escada íngreme –, não impede que pessoas de todas as idades confiram o restauro da peça de cedro de 1,45 metro de altura (com a base) e largura de 95 centímetros (da ponta de um dedo ao outro).

Vigilância

Mesmo considerada uma das igrejas mais seguras de Minas devido ao moderno sistema de vigilância eletrônica, os ornamentos de ouro (brincos, colar e olhos que pendem da mão) foram retirados e guardados num cofre fora da matriz.

“Trata-se também de uma ação de educação patrimonial, mas só pedimos para ninguém tocar na imagem. Fico atenta, pois trabalho com material químico tóxico e é preciso segurança”, informa a especialista.

Ela é responsável pela restauração da padroeira de Minas, Nossa Senhora da Piedade, no Santuário Estadual de Nossa Senhora da Piedade, em 1998, e de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em 1995, ambas em Caeté, de Nossa Senhora da Conceição, em 2007, em Sabará, e de Nossa Senhora de Lourdes, em 2011, no Mosteiro de Macaúbas, na Grande BH.

Um dia especial para os devotos

Na manhã de domingo, antes da missa celebrada pelo pároco Danil Marcelo dos Santos, alguns fiéis estiveram no consistório. A aposentada Maria Tereza Lopes, de 79 anos, estava feliz. “Morei a vida inteira diante da matriz e não me lembro de uma restauração assim. Acho ótima esta iniciativa, pois impede qualquer risco para nossa padroeira”, disse Tereza. “Que bom que podemos ver a imagem. É a primeira vez que chego tão perto assim”, comentou Maria Marta de Jesus, natural de Biquinhas, na Região Central, e moradora de Santa Luzia há 20 anos.

De Belo Horizonte, Lucíola Araújo Teles ficou emocionada, pois foi à igreja pagar uma promessa, por ter recuperado a visão depois de uma cirurgia. Ela estava na companhia da amiga Altina Aredes da Cunha, que levou o neto Leandro, de 6 anos. “É um dia especial. Vim agradecer e tenho esta oportunidade”, comentou Lucíola.


Trabalho requintado

Pela tradição oral, a escultura de Santa Luzia é de origem portuguesa e de autoria desconhecida, mas, segundo Carla, ela apresenta características mineiras e comuns em obras de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814): uma parte oca nas costas, que fica coberta pelo manto. “As imagens eram feitas de blocos maciços de madeira, então os escultores usavam esse recurso para impedir rachaduras. Vamos tirar a parte de madeira para imunizar por dentro contra os cupins”, explica.

Ela ressalta que a peça é da melhor qualidade e tem traços da imaginária mineira, particularmente na postura e feições. O penteado denota a nobreza de Santa Luzia, que tem vestes romanas por ser natural de Siracusa, na Itália.

No diagnóstico, a restauradora identificou desprendimento dos douramentos, perda da policromia, muita sujeira, alteração das cores originais, em função de variações climáticas e incidência de luz natural, retoques escuros, excrementos de aves e camada de verniz escurecido. “Vamos remover a repintura da base e trazer de volta a beleza original. A decoração pictórica é muito requintada e as vestes têm flores, lembrando os tecidos brocados”, conta.

Enquanto a padroeira não volta para o trono, ele está ocupado por outra imagem de Santa Luzia, pequena, encontrada por pescadores, no século 18, no Rio das Velhas, que banha a cidade.


ENQUANTO ISSO... ...RELÍQUIA VENERADA


Quem visita o Santuário de Santa Luzia já pode ver, no batistério, uma obra que ficou um século longe dos olhos de gerações de moradores e visitantes. Trata-se do quadro de Nosso Senhor dos Passos, do século 19, de autoria desconhecida e dono de uma trajetória peculiar. Somente durante a grande obra de restauro da igreja, em 1987, o painel, de 2,30m por 1,30m, foi encontrado atrás do altar. Desde então, ele ficou no consistório, mas o pároco, padre Danil Marcelo dos Santos, decidiu que ele deveria ficar em local onde todos pudessem admirar a sua beleza. Dessa forma, decidiu pendurá-lo no batistério, perto da entrada principal. Agora, o pároco busca recursos para recuperar a peça, que apresenta marca de pregos, manchas e outros efeitos da degradação, conforme mostrou o Estado de Minas em agosto. Com recursos do dízimo e barraquinhas, o padre, que está seis anos à frente da paróquia, já restaurou 20 imagens do santuário e paga agora a da padroeira.
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